Bom, meu nome é Lucas e tenho 17 anos.
Sofri bullying na por ter ”jeitinho de gay” desde a quinta série mais ou menos. Eu era vítima daqueles que, principalmente, se intitulavam ‘meus amigos’. Na época andava com um grupo de uns 5/6 garotos, dentre eles tinham um chamado Vitor o ”líder” digamos assim, conheci ele na segunda série e éramos muito , até que ele se aproximou de outros garotos e eu virei a piada do grupo.

Tudo começava mascarado com piadinhas, brincadeiras de mau gosto, os famosos xingamentos de ”gay e viadinho”, era só me verem bem que as piadas começavam, quanto mais pra baixo eu ficava parecia que mais feliz eles ficavam, foi uma época em que minhas notas na escola caíram, eu me afastei de familiares e tentava ao máximo fingir que não ligava para toda aquela situação, e negava ao máximo minha para tentar de alguma maneira evitar as tais brincadeiras que me machucavam mais e mais. Cheguei ao ponto de praticar bullying com outros garotos pra tentar chamar atenção do tal Vitor e o resto dos garotos, queria que eles vissem que eu também podia ser ”como eles” que eu não merecia aquela zoação e achei que zoando eu mostraria isso pra ele. Eu realmente cheguei ao extremo da humilhação, da babaquice pior que eu poderia ser algum dia, me tornei a pessoa que eu mais odiava. Sofria bullying, sofria com a minha sexualidade e zoava um outro garoto para chamar atenção daqueles que nunca mereceram nada de mim.

Eu tinha medo de simplesmente virar a cara pra eles porque isso significaria ficar sozinho e na época isso era a única coisa pior do que andar com eles… Quando comecei a sexta série entrou uma garota nova na sala (Débora)e comecei a conversar com ela e não demorou muito pra que virássemos amigos, parei de andar com esses garotos e comecei a andar com ela (que também não tinha muitos amigos na sala) e foi a melhor decisão da minha vida. Ela é uma das minhas melhores amigas até hoje e uma das principais causas de eu estar bem atualmente. Depois que comecei a andar com ela conheci novas pessoas e meu mundo mudou, eu passei a ser mais feliz. Mas ainda sim sofria com a minha não aceitação e as piadinhas sobre minha sexualidade (tanto daqueles garotos e de outros), o auge do meu sofrimento com a minha sexualidade foram dois garotos GAYS da minha escola. Esses dois eram mais velhos e as ”bichas” das escola, eram assumidos e ”populares” e eles viram em mim um gay dentro do armário e resolveram fazer da minha vida um inferno… Sim, os que mais me fizeram sofrer foram dois gays…

Eles me viam e vinham falar comigo sobre eu ser gay, davam apelidos pejorativos e zoavam, riam quando eu passava e toda essa coisa.

Eu evitava passar perto deles e quando não podia evitar passava de cabeça baixa, me escondia se desse e rezava pra eles não me notarem, mas eles me notavam… Noites chorando, dias e meses da minha vida perdidos lutando contra quem eu era, por causa, dentro outras coisas, dois gays, que deveriam tentar me ajudar e não o contrário…

Pensamentos de suicídio se tornaram recorrentes, noites em claro olhando pra facas dentro da gaveta pensando em acabar com tudo, mas felizmente nunca tive coragem para tal.

No final da minha sétima série um dos dois garotos mudou de período. Sobrando só um deles no mesmo período de aula que eu.. Eu o evitava como sempre, mas comecei a notar que quando ele estava sozinho ele não mexia comigo, eu era praticamente invisível pra ele. Com o tempo relaxei mas evitava troca de olhares por medo.. Passaram 2 anos. Eu já me aceitava melhor, não via mais nenhum dos dois garotos na escola e apesar de ainda ter certo receio quanto a minha sexualidade eu já tinha evoluído bastante no assunto.

Quando eu estava no primeiro ano do eu fui para Happy Holi (O Festival das Cores), fui com duas amigas e uns conhecidos dela… E ele estava entre essas pessoas, quando encontrei ele no terminal de ônibus fiquei desesperado e voltei a ser o mesmo garoto de 3 anos atrás, o mesmo garoto que corria dele no intervalo, aquele que não se aceitava. Fiquei desesperado e quase voltei pra casa com medo dele voltar a praticar bullying comigo e eu sabia que se isso acontecesse eu iria desabar na frente de todos.

Decidi que iria ir mesmo com ele lá. Fui quieto, longe dele o máximo que pude, evitava rir ou falar com medo dele ”me notar”. Durante o dia ele tentou puxar papo comigo diversas vezes, sendo super educado e gentil e eu apesar do medo, relaxei um pouco, com receio mas relaxei. O dia foi ótimo e quando cheguei a noite em casa ele tinha me adicionado no Facebook, pensei um pouco mas aceitei, assim que aceitei ele me mandou uma mensagem pedindo desculpas por tudo, dizendo que a ”fuga” dele, a fuga de todo o preconceito que ele sofria, foi me zoar, uma atitude de um adolescente imaturo, e agora uma atitude da qual ele se arrependia e queria que eu pudesse perdoa-lo. Li tudo aquilo chorando, sentia como um fardo sendo tirado das minhas costas, depois de muitas e muitas conversas dois anos se passaram e hoje eu e ele somos melhores amigos. Apesar de tudo que me fez no passado, ele acabou ajudando muito na minha autoaceitação depois desse dia. E ele me libertou.. Mesmo anos depois deles me zoarem eu ainda me sentia preso aquilo, sofria com aquilo mesmo não sendo mais recorrente em minha vida, e quando ele se desculpou ele tirou todo aquele peso das minhas costas, me mostrou que eu tinha motivos pra sorrir e me aceitar e que tudo que tinha acontecido comigo me tornou mais forte.

Hoje em dia, com 17 anos, sou assumido, namoro, minha família sabe, meus amigos sabem e falo abertamente sobre isso e não levo desaforos pra casa, seja qual for. Toda esse sofrimento que durou alguns anos da minha vida, apesar de dolorosos, fizeram eu ser quem sou hoje, me tornaram mais forte, mais feliz e me ensinaram que eu devo me amar acima de tudo.

O Conteúdo deste post foi enviado por um leitor aqui do blog, e faz parte do Projeto #DigaNãoAoBullying

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  • Cantinho da Bruna

    Oie,
    Acho que escorreu uma lagrima de raiva e tristeza aqui… ´
    Não é fácil sofrer bullying, e apesar de todas as coisas que o rapaz passou, ele se libertou no final e sem ódio pelo seus agressores, o que achei incrível. Fico muito feliz que ele está bem e não esconde mais sua sexualidade e nem a si mesmo.

  • Paac Rodrigues

    sempre tem uns escrotos né? porra pra quê fazer mal ao outro? pra mim isso é insegurança, e como não sabem resolver descontam nos outros =/

  • André Gama

    Oi Gabriel,
    Lindo o depoimento do seu leitor. Ele passou por uma grande barra, mas. felizmente. sobreviveu e saiu mais forte disso tudo. Não sei se perdoaria o outro garoto. Não teria raiva dele, mas perdoar… acho que não. Sei que não devemos guardar mágoas, que isso só faz mal pra gente, mas acho que o que ele fez foi muito grave. Não foi uma brincadeira inocente. Ainda bem que existam pessoas como Débora no mundo!! Texto muito bem escrito e emocionante. Seja feliz hoje e sempre!!

  • nossa, que tenso tudo que ele passou… é horrível ter que conviver com esse tipo de situação… na escola isso ainda é muito frequente, infelizmente… quando percebo algum dos meus alunos passando por algo do tipo costumo dar muito apoio, é uma questão de desconstruir os preconceitos que se escondem nessaas ‘piadinhas’… ainda bem que Debora ajudou a melhorar tudo isso…
    bjs…

  • Tatiana R. Castro

    Uauuuu, é sempre impactante ler relatos sobre bulling e entender as dimensões do sofrimento causado, ainda mais quando as palavras conseguem transmitir tão bem os sentimentos. Achei importante focar no fato de que muitas vezes quem pratica essa atrocidade, já foi vítima também.

  • Michele Lopez

    Olá,
    Achei muito interessante a forma como abre esse espaço para que as pessoas possam se expressar e mostrar seus relatos.
    Preconceito é muito complicado e aqui temos uma situação muito delicado pela qual esse jovem passou. O importante é que mesmo depois de tudo, ele se considera mais feliz agora e se tornou mais forte para se assumir. Nem todos tem essa coragem de dar a cara a tapas e espero que realmente o respeito prevaleça no cotidiano do rapaz, porque essa é a palavra chave.

  • LILIAN FARIAS

    Você sofreu homofobia e seu relato é forte, há uma necessidade de pertencimento a grupos quando somos jovens, por isso a necessidade de não ser aceito por amigos. Com o tempo, aprendemos a selecionar, mas isso não apaga as marcas da violência causada pela homofobia, que mata diariamente. Obrigada por compartilhar seu relato de maneira tão aberta, espero que aqueles de mentes doentes e fechadas, possam de alguma forma se compadecer e repensar suas atitudes.

  • oi ^^
    meus parabéns por ter superado os obstáculos a sua frente pq olha não é nada fácil.
    as pessoas tendem a machucar o que não faz parte desse padrão estupido imposto pela sociedade e cada vez está tudo mais violento, tá mesmo complicado viver.
    de qualquer forma, gostei muito do seu texto.

  • Olá! Parabéns pela iniciativa de permitir que pessoas que sofreram bullying escrevam para o seu blog. Logo que li o relato do Lucas, senti-me completamente ligada a ele. Que triste é perceber que um garoto tão legal sofreu bullying por sua sexualidade (sexualidade esta que ainda estava descobrindo e aceitando). Gostei, no entanto, de ver o desfecho e imaginar que a vida dele ainda tem muito a oferecer. O que achei mais interessante é que ele próprio se tornou um agressor para tentar desviar a atenção que recebia; e que o agressor dele, depois de anos, admitiu que só o agredia porque também fugia de si mesmo. Realmente, a vida nos surpreende ao percebermos as várias facetas de uma mesma história.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.com.br

  • Olá Gabriel, primeira parabéns pelas suas palavras, foram reflexivas e me emocionou. O que vc passou é uma situação lamentável. Eu sofria bullying no colégio, mas para evitar isso virei a defensora da escola, quando via alguém sofrendo eu partia pra cima sem dó. Batia mesmo, cheguei a ficar suspensa muitas vezes, mas não deixava alguém menosprezar o outro. Sou assim até hoje, tomo as dores e defendo. Sobre sua aceitação vc teve muito amadurecimento, parabéns!!! Espero muito que vc prospere em sua vida, em todos os setores, saiba que vc não está sozinho! Se precisar conversar, pode contar comigo. Grande bjs e sucesso.

  • Thaisa Tavares

    Oie,Gabriel, tudo bem? Amei o texto, me identifiquei muito com o sentimento passado e sei como é. Passei por isso na escola e foi bem chato, BEM chato mesmo e não desejo pra ninguém.

  • Eskarlet Cardoso

    Caramba cara eu amei muito teu texto, simplesmente perfeito, consegui sentir teu sentimento e emoção escrevendo. Sei o quanto esse tipo de assunto é delicado, pois também sofri bullying, porém os motivos eram meu cabelo e meu peso, eu sempre fui a baleia de cabelo ruim da turma, então sei bem o quanto é ruim não responder por medo de ser isolado, mas sabe comigo aconteceu o mesmo, o tempo passou e hoje sou uma pessoa realizada e fico muito feliz que você hoje esta bem e tem pessoas que se importam de verdade com você ha sua volta.

    • Então, esse texto faz parte de um projeto aqui do blog, e os fatos do mesmo aconteceram com um dos leitores daqui. O Objetivo do projeto é mostrar para as pessoas como se sente uma pessoa que sofre com Bullying e de alguma forma acabar com esse tipo de crime.